Há sofrimentos que não se explicam apenas pela história individual de uma pessoa.
Eles persistem, retornam, atravessam fases da vida e se manifestam em diferentes áreas — nos relacionamentos, na vida financeira, na dificuldade de sustentar o que se conquista, na sensação de estar sempre sendo puxada para trás.
Nesses casos, não se trata apenas de escolhas atuais ou de conflitos pontuais. Trata-se, muitas vezes, de heranças psíquicas e existenciais, de histórias que não encontraram elaboração no tempo em que aconteceram e que permanecem ativas no que chamamos de inconsciente familiar.
Aquilo que não pôde ser visto, reconhecido ou simbolizado em uma geração tende a reaparecer em outra, não como lembrança consciente, mas como repetição.
Quando a repetição não é acaso
É comum que pessoas submetidas a esse tipo de repetição leiam o próprio sofrimento como falha pessoal. Atribuem a si mesmas a responsabilidade exclusiva por aquilo que vivem: falta de capacidade, de esforço, de maturidade ou de merecimento.
No entanto, nem toda repetição nasce da história individual.
Algumas repetem porque carregam uma dívida que não se originou naquela vida, mas que busca, por meio dela, algum tipo de resolução.
Para compreender essa dinâmica, o mito da Casa de Atreu, na mitologia grega, oferece uma imagem simbólica de grande potência.
A Casa de Atreu: uma linhagem marcada pela dívida
A história da Casa de Atreu é marcada por crimes, sacrifícios e vinganças que atravessam gerações. Cada personagem age como resposta a uma violência anterior, tentando reparar algo que, na verdade, se aprofunda a cada tentativa.
O que sustenta a tragédia não é a maldade individual, mas a impossibilidade de interromper uma lógica antiga, baseada na compensação e na vingança. A violência não é simbolizada — ela é repetida.
Nesse contexto nasce Orestes.
Orestes: o herdeiro do não resolvido
Orestes não cria o conflito que vive. Ele nasce dentro dele.
É herdeiro de uma história marcada por assassinatos e sacrifícios, e se vê convocado a resolver algo impossível: ao vingar o pai, mata a própria mãe; ao obedecer a uma ordem divina, viola uma lei fundamental.
Após o matricídio, Orestes passa a ser perseguido pelas Erínias, figuras que personificam a culpa ancestral e a cobrança do que não foi elaborado.
Elas não escutam intenções.
Não ponderam contextos.
Elas cobram o fato.
Orestes representa, simbolicamente, aquelas pessoas que:
sentem-se responsáveis por conflitos que não começaram nelas
carregam culpas desproporcionais à própria história
vivem sob uma cobrança interna constante
repetem dificuldades nos vínculos e na vida material, apesar de terem potencial para mais
Ele é o portador da dívida sistêmica.
As Erínias e a cobrança do que não foi simbolizado
No campo sistêmico, as Erínias podem ser compreendidas como a expressão simbólica da memória inconsciente de um sistema familiar. Elas representam aquilo que foi excluído, negado ou silenciado — e que, por isso mesmo, retorna como exigência.
Enquanto essa dimensão permanece inconsciente, ela cobra.
Cobra em forma de repetição, estagnação, sofrimento ou autossabotagem.
O que não é visto, cobra.
Da repetição à consciência: a possibilidade de transformação
A virada no mito acontece quando a lógica da vingança é interrompida. Atena institui um tribunal. Orestes é ouvido. A história é colocada em palavra. A violência deixa de ser resolvida pelo sangue e passa a ser simbolizada.
As Erínias não são eliminadas.
Elas são transformadas em Eumênides, forças que deixam de perseguir e passam a proteger a ordem.
Simbolicamente, isso aponta para um princípio fundamental:
aquilo que encontra reconhecimento e lugar simbólico não precisa mais se manifestar como cobrança.
Dívidas e Cobranças Sistêmicas: um trabalho de ampliação de consciência
O trabalho com Dívidas e Cobranças Sistêmicas se ancora exatamente nesse ponto. Ele parte do reconhecimento de que nem todo sofrimento é individual e de que certas repetições pedem um olhar mais amplo, que inclua a história da qual a pessoa faz parte.
Não se trata de apagar o passado, nem de buscar culpados, mas de dar lugar ao que ficou sem lugar, permitindo que a vida deixe de se impor como destino e possa, pouco a pouco, se tornar escolha.
Conhecer-se, nesse nível, não é um exercício superficial de autoconhecimento.
É um gesto de responsabilidade profunda diante da própria vida e da herança que se carrega.
Porque, como nos lembra essa dinâmica tão antiga quanto atual:
quando a história não é reconhecida, ela se impõe.
quando é simbolizada, pode finalmente descansar.

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